Subvertendo

luzdeluma
Aqui estou diante da janela deste casarão que me arrasta ao pior de todos os amanheceres de minha vida. Foi em Abril do ano passado, quando sentei na cadeira próxima e encostei os cotovelos na marquise, olhei o céu e as nuvens que se moviam lentamente pensando no tempo que passou - parecia outra pessoa e anestesiada, assistia um filme da minha vida.

Observei meu reflexo no brilho da vidraça que já tinha sido pequeno e agora é alto. O meu cabelo parece o mesmo visto muitas vezes, mas o rosto não! Eu cresci, meu rosto se alongou, as bochechas desapareceram e agora meus olhos não são mais tão curiosos; estão ofuscados pelas descobertas que a vida trouxe e, neste dia em particular, existiu um certo cansaço, uma vontade imensa de também morrer!

Meus antepassados atravessaram planícies habitadas pela morte e cruzaram o oceano até encontrarem um lugar para viver e do mesmo modo, quando saí do aconchego do lar, sabia que no trem que partia, vários passageiros também procuravam pela melhor acomodação e não à toa, procuramos pelos bancos mais dignos.

Lá fora, pessoas andam de um lado para o outro e outras espiam pelas janelas. Conspiradores, os que cruzam o olhar, sorrindo de leve uns para os outros. Neste compasso, haverá os que imaginam o motivo pelo qual não tenho flertado com eles e num piscar de olhos admiram a moça seguinte, imaginando o mesmo motivo. Por que as pessoas sentem necessidade de serem aceitas, por qualquer que seja o motivo - Senão um flerte, estarão analisando se estão ou não diante de uma boa pessoa, se foram ou não com a cara dela. Passarão na mesma pinguela? As pessoas estão cheias de razões.

Acontece que nessa manhã que olho através da janela, o vento está parado e nem as nuvens se movem. Como não há movimentação celeste?

Não fazia meia hora que minha mãe tinha partido e a sua imagem muito elegante e olhar calmo tivera sido rodeada pela luz que enchia o quarto - parecia observar tudo que acontecia em volta quando a vida se foi num piscar de olhos.

Foi então que ouvi a minha consciência mandar que eu teria que me afastar de mim mesma e pensar no que precisava fazer, nas responsabilidades que deveria assumir e principalmente pensar em quem dependia das minhas reações. A vida nos dá tudo, mas também tira.

Vou amá-la enquanto viver e, só queria pensar naqueles dias anteriores, àquela coisa horrível e irrevogável que ocorreu. Terei novos amanheceres, mas nenhum outro estará embebido no branco manto calmo do seio materno.

Atravessei o oceano, para mais uma vez encontrar-me diante do cão de guarda em meu próprio quintal - e havendo este quintal ficado menor, e o cão de guarda bem maior, foi quando coloquei as cancelas. Por que sempre penso que a liberdade é falsa e se torna insuportável depois que a possuímos. Você não entende a sensação de paz que a morte traz até passar por ela.

Depois, com o passar dos dias, a anestesia também vai passando, a paz vai se transformando em algo bastante melancólico e a preocupação continua sendo a de poupar as pessoas que ama, desse sentimento que te invade. Em você fica faltando um pedaço.

E estar diante dessa janela, relembrando os fatos, de certa forma é um exercício de procura do momento crucial e definitivo, do momento que também modificou todas as outras pessoas, quando você passou a enxergar o mundo e as pessoas de forma diferente. Descobre que estava seguindo por um labirinto cheios de sinais e agora sozinha, terá que descobrir os sinais verdadeiros dos sinais falsos. O futuro se mostra mais estranho e desconhecido.

luzdeluma
O tempo passou e sempre me lembro daquele acidente. No fundo do meu coração, compreendi que jamais haveria nova conversação sobre o meu futuro e que deveria viver por conta própria, sem os vínculos emocionais que me deram sustentação - sempre me orgulhei da minha força de vontade, da minha capacidade de decisão e de levá-la adiante. Essa virtude, como a maioria das virtudes, é a própria ambiguidade. Quem acredita ter vontade firme e ser dono do próprio destino somente pode continuar a crer nisso quando se torna especialista em enganar a si mesmo. As decisões de gente assim não são realmente decisões, pois para tomá-las, quando verdadeiras, sentimos estar à mercê de um número incalculável de outras coisas, e não passam de complexos sistemas de evasão, ilusão, destinados a fazer com que nós e o mundo pareçamos ser o que nem um nem outro são.

Eu conseguiria grande êxito, mediante o recurso de não olhar para o universo, não olhar para mim mesma e permanecer em movimento constante, mas estou parada diante desta janela. Não pude evitar. Cansei-me dos movimentos.

Em tempo: Mesmo atrasada quero agradecer os selinhos recebidos da Bebeth, Acácia Azevedo e Nanci. Obrigada, Meninas!

27 comentários :

  1. Luma:
    Olho pela janela que não é a sua...mas sua foto me mostra um pedaço de você.
    Porque fotografamos a nos mesmos, ou intantes nossos.
    Um texto triste, que revela seu olhar na janela...

    #Obs:
    Não sei se meu nome vai até o novo Blog Linha.
    Espero que sim.
    Anny.

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  2. Desaguando emoção. Mas uma emoção reflexiva. Tão pessoal o texto que nem pensei que fosse você, talvez um poema de outro escritor que vc usasse como espelho... Acabou que inacreditavelmente era vc, numa poesia em prosa, muito íntima e emocionante. Só vc mesmo pra didivir isso conosco.

    Tirei aqui uma lição sobre "perdas". Tive uma impactante há dois anos, mas estou adiando... Bem, vc sabe, é preciso trabalhar a dor. Como vc fez aí em cima. Estou adiando.

    Um boa semana é o que desejo do fundo do meu coração. Imagino que toda aquela sua energia positiva e bom humor restaurem-se em breve, porque são traços marcantes aqui no blogue.

    Um abraço,

    Michelle

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  3. Boa tarde Luma! As perdas faz a gente ver essas nuances introspectiva, as vezes melancólica da vida. Já tive essa sensação de ficar anestesiada...

    Sensível e corajosa reflexão!

    Um bom finzinho de domingo e uma ótima semana!

    Amanhã teremos mais um pouco da Coleção...

    Ternurassssssss

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  4. Querida,
    Revisitar o lugar de onde voce saiu com o luto ainda anestesiado, ( ja ouviu falar que quando a dor é muita-tipo um braço arrancado- a propria dor anestesia?)é bastante forte e dificil, por que como voce mesma sentiu agora, a anestesia já passou. A ausencia de sentido varre o mundo quando a gente leva um encontrão ( para nao dizer outro nome) do REAL. E agora, doendo o que tiver que doer.
    O trem carece de sentido e os passageiros tb. Os sentimentos -dos outros-se embolam. Mas amanha e sempre ha um amanhã, você vai estar na sua praia, e as ondas do mar que tudo lavam, inclusive as lagrimas, vao te acalentar. Os teus vão te alegrar. E de noite uma estrelinha vai brilhar e pode contar que ela é a tua mãe olhando por voce, senao a vida nao teria nenhuma poesia se nao contássemos com esse olhar de estrela. Enfim minha flor, saiu assim, do coração, alguma coisa para te dizer-estou aqui, lendo o que voce escreve, de alguma forma, te acompanhando. Um beijo grande, fique bem. Serena e é só. Um dia voce vai ler teu texto, como se fosse outra pessoa que escreveu, e foi. Por que dentro de um outro tempo, uma outra dimensao dificil de ser alcançada nos dias que passam.
    Fique com Deus, o que quer que seja essa manifestação é boa, construitiva e sempre em continuidade.
    Muita delicadeza com voce mesma nos proximos dias e sempre.
    Cam

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  5. Tristes lembranças de momentos dolorosos e que deixam marcas pra sempre...
    Uma semana linda,beijos,chica

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  6. Luma,
    Você consegue descrever a dor, a saudade,a realidade ante o impacto do luto de forma tão intensa que pude estar lá, com você, sentindo aqueles mesmos sentimentos.
    A dor da saudade é imensa, mas ela é a lembrança de que o amor é eterno.
    beijo, menina

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  7. Oi Luma!

    Sensível e sentido seu texto. Use o tempo a seu favor, abuse dele, só vai fazer bem. Take care.

    beijo grande querida, boa semana !

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  8. Fiquei emocionada com a maneira que descrevestes este momento.
    Muita força Luma e fica com Deus.

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  9. Luma,

    Fique bem! As perdas de quem amamos nos deixam saudades,um dia essas saudades tornam-se mais suportáveis. Reflexão dolorida e linda.

    Girassóis nos seus dias.
    Beijos

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  10. Luma,citei Goethe, de um outro post seu, porque ele diz o que gostaria de dizer e não sei. Li os posts "Voltando" e as "Crônicas do Afeto.Você me emocionou ao escrever sobre a dor da perda e as mudanças em sua vida de uma forma sensível e intensa.E fiquei admirada com a sua corajosa reflexão. Obrigada pelos posts, ajudou-me muito.

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  11. Uma maneira poética de vivenciar a morte

    Me senti olhando pela sua janela!

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  12. Ainda estou processando todas as emoções que seu texto me trouxe. Muito profundo, delicado e sensível.
    Bjs e fik c Deus.

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  13. oiii
    adorei o blog
    to seguindo
    bjo

    http://rgqueen.blogspot.com/

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  14. Caramba Luma, esse post tocou na alma.
    Sei que seguir adiante é o caminho,mas em um momento triste desses as vezes precisamos deixar o corpo anestesiado e deixar as emoções tomarem conta.
    Deixar a mente fluir...as vezes difícil tarefa para quem é pratico e racional.
    Graças a Deus,o tempo é o melhor dos remédios!
    Beijocas!!

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  15. Entao... hehehe. Tou aqui escrevendo o projeto e para "refrescar" as idéias olho nos blogs. Uma forma de dar um passeinho... Dificil deixar o blog, voce sabe,hehehehehe. Ta mais animadinha hoje? Beijao!

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  16. Emocionante seu texto Luma.
    Big Beijos

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  17. Olá flor, passei para visitar e não pude deixar de seguir.
    Adorei seu Blog.
    Aproveito para convida-la a conhecer meu novo Blog.
    Beijão.
    http://feminina-ao-extremo.blogspot.com/

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  18. Oi Luma,

    Nem sei o que dizer. Talvez este post seja só uma maneira de tentar reduzir a dor, as indagações. Enfrentar as pernas com força e dominio de si proprio não é para qualquer um.
    Fiquei emocionada.
    Super beijo
    Lu

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  19. Esse é um tipo de texto que eu gostaria de ter escrito: ele é tão elegíaco plácido.


    Beijos,


    '@richadplacido

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  20. As vezes ficar parado é tudo que podemos e conseguimos fazer.
    Força
    Fica com Deus
    Beijos saltitantes
    Boa semana

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  21. Luma, que texto, profundo e descritivo. Eu senti um tanto de melancolia, claro, é. Senti no seu lugar. Eu me senti olhando pela janela do tempo... aquele que ora passa depressa, ora tras recordações.

    Um beijo!

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  22. Certas perdas, por mais que passe o tempo, são difíceis de superar. Bem como as decisões que precisamos tomar e que nos deixam nostálgicas pelo que poderia ter sido e não foi...

    Mas... bola prá frente, menina!

    Beijos e flores para ti!

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  23. Bom dia Luma!

    Respondi sua pergunta lá nos comentários... Qualquer dúvida é só "falar"...

    Beijãooooooooooooo

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  24. Luma, fico completamente anestesiada quando vejo pessoas que sabem brincar com as palavras...e fazer com que elas, em cada sílaba expressem o sentimento, o grande sentimento que se passa no íntimo.

    estou sem fôlego!

    Beijo

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  25. Uau! Você me deixou sem palavras... Beijo, beijo, e fique bem! ;) Ahhh abraço apertado tb!
    She

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  26. Olhar para o seu íntimo através da metáfora da janela. Fico feliz em observar que as janelas trazem reflexos e que a saudade abre portas que são apreciadas aqui, neste espaço, através dos seus posts.
    Bjs

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  27. Eu ando tão ausente e ao olhar por essa janela, me senti em dívidas comigo mesmo e com tantas pessoas porque há momentos em que precisamos deixar de lado os nossos dramas pra poder alcançar o outro.
    Fiquei olhando pela janela e vendo outros milhões de janelas com milhares de ilusões que não me alcançam. Pensei em fechar os olhos, mas fiquei ali a perceber ao menos o seu olhar, o seu sentir que vibrou a partir desta janela que as vezes se fecha, as vezes não.
    bacio carissimma

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