Ensaio para o apocalípse - Hiroshima, Nagasaki e Angra

Jornal de Hiroshima
Imagem manipulada por Eric Hart do Jornal de Hiroshima

As bombas que queimaram Hiroshima e Nagasaki apresentaram a energia nuclear ao mundo e acabaram com uma guerra já acabada - precisamente às 8h15m da manhã de 06 de Agosto de 1945 - 0s relógios calcinados comprovam. Naquele instante, 80 mil habitantes da cidade de Hiroshima deixaram de existir. Ainda assim, o Japão não se rendeu. Em 09 de Agosto, uma segunda bomba foi lançada sobre Nagasaki. Mais 40 mil mortos. Cinco dias depois, o imperador Hiroíto se rendia incondicionalmente. Além dessas mortes instântaneas, houve centenas de milhares nos anos seguintes. Causas? Câncer e defeitos de nascença... Os monstros estão à solta!

Hiroshima vista aérea
Imagem Deutsche Welle

Trabalhei com uma pessoa que esteve em Hiroshima por ocasião dos 50 anos da explosão da bomba nuclear ao fim da Segunda Guerra, em uma Conferência do Pugwash, movimento antinuclear fundado por Albert Einstein e Bertrand Russel. Ele me contou sobre a origem da tecnologia nuclear e principalmente sobre os seus fins militares. Não foi apropriada simplesmente pelos políticos, generais e empresários. Foi uma proposta dos melhores físicos, não como mercenários da ciência, mas por razões políticas e éticas, e movidos pelo medo de os nazistas na Alemanha fazerem a bomba.

A fissão nuclear usada nas bombas foi descoberta na Alemanha, nos anos 30, com a conversão de massa em energia prevista pela teoria da relatividade restrita de Einstein. Ele foi um dos que se dirigiram ao presidente Roosevelt, com outros distintos físicos refugiados nos EUA do nazismo e do fascismo, como Fermi e Szilard.

O erro deles, daqueles que enchem o inferno de bem-intencionados, foi que os alemães não estavam fazendo a bomba. Descobriu-se isto com a capitulação de Hitler, mas mesmo assim a bomba foi lançada sobre o Japão, contra a opinião de alguns dos físicos do Projeto Manhattan - o projeto da bomba - como Bohr e Rotblat.

O primeiro ameaçou passar aos soviéticos, que nada sabiam, o segredo só compartilhado com os ingleses, que haviam começado os estudos da bomba estimulados por Szilard, Joseph Rotblat - que, como presidente do Pagwash, ganhou em 1995 o Nobel da Paz, uma semana após ter feito uma conferência no Brasil, na sede da Coppe/UFRJ - recusou-se a continuar e saiu do projeto.

As bombas de Hiroshima e de Nagasaki foram lançadas no Japão contra os soviéticos, marcando o início da Guerra Fria, só encerrada com a queda do Muro e com Gorbatchov.

A segunda etapa da tecnologia nuclear foi ainda militar, na década de 50: trata-se do submarino nuclear - que o Brasil também desenvolveu no Centro de Aramar, da Marinha, em São Paulo. A terceira etapa, finalmente, foi a geração nuclear de eletricidade, tornada comercial na década de 60, tendo como subproduto as aplicações de radioisótopos na medicina, indústria e agricultura. Esta etapa foi tomada como uma redenção da energia nuclear, vista na época pelo lado positivo: gramas de urânio 235 liberam a mesma energia que toneladas de petróleo. Mas durou pouco este edílio entre a tecnologia nuclear e a opinião pública.

Os movimentos ecologistas e pacifistas da década de 70 apontaram riscos da radioatividade para o meio ambiente e para a população. Foram negativos os acidentes com os reatores de TMI na Pensilvânia e de Chernobyl na Ucrânia e com a bomba de césio 137, abandonada em Goiânia, sem vigilância, em prédio de um antigo hospital.

No Brasil a história da energia nuclear começa após a Segunda Guerra com a importação da Alemanha de ultracentrífugas para enriquecer o urânio pelo almirante Álvaro Alberto, que hoje dá o nome à Central de Angra. A tecnologia de enriquecimento serve para aumentar o percentual do isótopo 235 no urânio natural. Considerada de interesse militar, teve a oposição dos EUA que procuraram bloquear as ultracentrífugas e Álvaro Alberto caiu em desgraça.

A fase seguinte foi a de Átomos para a paz do governo Eisenhower, quando o Brasil instalou o primeiro reator de pesquisa no campus da USP, no então Instituto de Energia Atômica, pertencente à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Depois vieram dois outros para os institutos similares no campus da UFRJ e da UFMG, onde surgiu o primeiro projeto de reator brasileiro. A ideia foi abandonada a partir da decisão de comprar da Westinghouse o reator Angra I para Furnas Centrais Elétricas, tomada pelos governos militares, em 1969. O reator foi concluído nos anos 80.

A fase que se seguiu foi do acordo nuclear com a Alemanha, no governo Geisel, novamente em confronto com a oposião americana. Criou-se a Nuclebrás, que se associou à Siemens alemã, constituindo um complexo de empresas desde a engenharia de reatores (Nuclen) e de combustível nuclear, passando pelo enriquecimento (Nustep) e reprocessamento - usado para extrair o que restar do Urânio 235 e do Plutônio 239, inclusive para novo uso em reatores - servindo para bombas também - O objetivo de fazer oito reatores até 1990 não foi alcançado. Angra II entrou o operação em 2000. O processo de jato centrífugo comprado da Alemanha falhou. O reprocessamento não foi adiante devido à pressão americana contra o uso de plutônio 239.

Enquanto o programa nuclear marcava passo, secretamente foi desenvolvido o programa paralelo, no âmbito militar. Revelado já ao fim do governo Figueiredo, dele resultou o enriquecimento de urânio, por ultracentrifugação, dentro do projeto do submarino nuclear desenvolvido pela Marinha. Este é o processo usado comercialmente por um consórcio da Alemanha, Inglaterra e Holanda, enquanto os EUA e outro consórcio europeu liberado pela França usam do enriquecimento por difusão, desenvolvido também pela Argentina, ao mesmo tempo que o Brasil.

O aspecto negativo do programa paralelo foi a programação de uma explosão nuclear para ser feita na Base Aérea de Cachimbo, denunciada por uma comissão da Sociedade Brasileira de Física. O plano foi negado mas reconhecido pelo governo Collor, que o desativou. Na parte militar o projeto do submarino vai lentamente e o enriquecimento transferido para a área civil.

O espectro da bomba foi afastado pelo acordo com a Argentina e a criação de uma agência - ABACC - para inspeções mútuas. Ademais o Brasil, além de colocar em vigor o Tratado de Tlatelelco, de proibição de armas nucleares na América Latina, Assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP). Entretanto, em nível mundial, EUA, Russia, Inglaterra, França e China continuam com seus arsenais nucleares. Israel, Índia e Paquistão também possuem bombas nucleares.

Com todo esse processo, a Nuclebrás foi desfeita. Em seu lugar a Indústria Nuclear do Brasil (INB) e a Eletronuclear, que absorveu a Nuclen e a parte nuclear de Furnas. As usinas de Angra foram construídas em solo ruim que precisaram de estacas na fundação. Angra III, paralisada em 1986, foi incluída no Programa de Aceleração do Crescimento - PAC. Com início de atividade previsto para 2010, a data passou para 2016.

O plano de emergência para casos de acidente nuclear grave avançou na organização mas desconsidera a hipótese de pior acidente no planejamento da evacuação, em curto prazo, que se restringe ao raio de 5 quilômetros - antes se considerava 15 quilômetros - e exclui a cidade de Angra. Outro problema, não há definição final dos rejeitos radioativos, perigosos para o meio ambiente.

Energia nuclear
Greenpeace

A favor da energia nuclear está o fato que ela não emite gases do efeito estufa, que aquecem o planeta e podem causar mudanças climáticas (Ui! Alguém anda sentindo mudanças no clima?). As hidroelétricas os emitem pouco e as termoelétricas a gás natural, petróleo ou carvão, emitem muito. Entre U$8 a 10 bilhões foram gastos e o custo real de quilowatt nuclear chegou ao triplo do hidroelétrico, ainda disponível no país. Quem paga a conta deste país muderninho?

26 comentários :

  1. Luma,
    eu postei hoje sobre esse tema.
    Sinceramente, não me liguei na data.
    Foi algo que agora que li teu post, me deixou surpreso.
    Mas estamos no mesmo lado, o da paz.

    Abraço fraterno.

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  2. Por outro lado, construir novas hidreletricas como Belo Monte, causa furor e a mobilização das mesmas entidades que são contrárias a energia nuclear!
    Fazer o que?

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  3. é complicado...
    o conforto versus ecologia, vida, segurança.

    aqui a energia nuclear deu no que deu. hj, com apenas 16 das 54 usinas funcionando, o país tá se mantendo em ordem, sem cortes no fornecimento de energia (o Japão já tá "fraco", não é mais o mesmo de antes). Mas a luta é pra parar tudo.

    que o mundo opte pela energia limpa e não-nuclear. tá na hora né.

    bom domingo, Luma!

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  4. Acho uma tremenda demonstração da incapacidade humana continuar desenvolvendo uma energia nuclear capaz de destruir o planeta, quando existem alternativas sustentáveis. Os críticos alegam que nem toda a energia sustentável produzida hoje seria capaz de suprir a necessidade demográfica e eu respondo que se todo o dinheiro despejado na energia nuclear fosse usado em pesquisas, teríamos todas as soluções. Na Itália houve um referendo há anos banindo a energia nuclear, mas este ano o sr Berlusconi tinha projetos para reativar as usinas desmontadas. Só a catástrofe japonesa e um novo referendo o impediram.

    Querem acabar com o mundo?

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  5. Bem que poderia ser um "ideal de mundo" as potências nucleares se desarmassem.
    Teu post me despertou curiosidade a ler mais sobre o assunto.

    Bom domingo, Luma!

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  6. Oi Luma!

    Quem? Além da conta, o planeta pode virar um bagaço...

    Luma muita informação desconhecia, mas acredito que além das "boas intenções" existe muito um estratégia mais política do que preocupação com a energia renovável e mais humanizada.

    Um bom domingo p/ vc!

    Beijoooooooo

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  7. Tenho medo cada vez mais do que o homem é capaz. Bomba Atômica e Holocausto são episódios amargos da humanidade.
    Big Beijos

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  8. E assim caminha a humanidade ...

    como sempre uma publicação complexa e cheia de informação. Beijo e boa semana Luma!

    Tin

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  9. Oi querida Luma,
    Precisode mais tempo para ler os links dessa postagem. Cheguei em casa agora a pouco e vou arrumar mala para passar uma semana fora, amanha.
    Toda essa historia do Einstein e o mau uso da bomba é muito triste. O mundo nao precisava ter passado por isso, nem o Japao especificamente.
    Serviu de liçao para toda a humanidade de que tudo pode terminar em um segundo.
    Beijos e boa semana!

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  10. Eu acho que já te disse que o humano me cansa. E cansa mesmo, afinal, tantas coisas mais importantes e só se apegam a tolices como essas. A energia nuclear pode e deve ser descartada ou vamos num futuro muito breve virar filmes de ficções naqueles em que mostram a terra destruída. O humano parece ter fixação por esse tipo de coisa. Parece precisar se auto boicotar. Sei lá.
    Enfim, as coisas estão aí, alguns alertas já existem, mas há aqueles que teimam...

    bacio

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  11. Hiroshima e Nagasaki... manchas indeléiveis, na história da humanidade. Energia nuclear, ainda uma incognita no quesito custo/benefício. Excelente post, Luma! Boa semana.

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  12. A segunda foto é impressionate! Se concreto, paredes e muros ficaram assim, o que dizer de seres humanos?
    Todas essas tragédias ficaram marcadas para sempre e parece não servir de exemplos para algumas bestas que teimam em fazer testes nucleares, ameaçando a humanindade.
    Sou fascinada por tudo relacionado à 2º Guerra Mundial. Seu artigo está excelente, principalmente nos esclarecimentos da energia nuclear no BR. Serve como fonte de pesquisa. Lembro do tempo do acidente em Goiânia mais por causa daquela campanha na TV "Eu ♥ Goiânia. E você?

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  13. *Impressionante (correção).
    Digito mal e sonho com um teclado que obedeça comando de voz. =)

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  14. É bom saber que a juventude não esquece. Assim, talvez não se repita...

    Beijinhos

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  15. Me assusta saber que ainda se constroem usinas nucleares que podem destruir o planeta, quando sabemos que existem outras alternativas sustentáveis.

    Luma, brotaram lágrimas nos meus olhos ao ler:
    Flora
    Floração
    Florescer...

    Obrigada, amiga!

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  16. Olá, querida
    Vendo os estragos no espaço físico e na alma de quem "resta"... nada mais a declarar...
    Mistério do coração humano que deseja ser como Deus e acaba "endemoniando"(dividindo) tudo de bom e belo que temos pra desfrutar na paz...
    Bjs e ótima semana.

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  17. Luma, este fato ainda é uma ferida para a humanidade! Um exemplo para que jamais aconteça novamente!Acabo de ouvir Rosa de Hiroshima, me deu vontade de chorar... Um beijo!

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  18. No Livro Senhores dos Sete Raios, existe um ensinamento dos Grandes Chohans, sobre o Poder do Relâmpago Azul, da Mente de Deus-Universo, que pode estilhaçar os campos de força de qualquer forma de negatividade... incluindo da radioatividade...

    Bastado chamar com poder...
    Relampago Azul estilhace os campos de força desta energia...!
    Mas neste caso:
    Relampago Azul nas Mentes dos Homens! Nos Corações Humanos!!!!!!!!

    Bjus de Luz, Luma... ( e eu que vinha aqui hoje só pra vc ficar de olho em mim... acabo deixando meu pitaco! )

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  19. Quero muito que venha ver este post que fiz da Parada do orgulho Hétero e saber tua opinião! rsrsr @.@ !

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  20. Caros amigos, preciso comentar sobre uma grande distorção que se tem com relação às bombas atômicas disparadas no Japão. Se voces forem ler a história da guerra nas ilhas do Pacífico para tirar os japoneses de lá vão ver que a mortandade foi impressionante, principalmente do lado dos japoneses que invariavelmente preferiam morrer até o último homem. À medida que se aproximava do Japão as batalhas eram mais sangrentas, culminando com Okinawa. A perspectiva naquele momento era a morte de milhões de pessoas principalmente de jaoneses, se tivesse de haver a invasão. A bomba atômica foi uma ótima coisa pois acabou com a guerra e salvou a vida de milhares de pessoas, principalmente de japoneses... realmente, na época não havia outro jeito. Hoje só se pensa nos que morreram, mas não nos que foram salvos.

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  21. Um belo dia pra ti minha amiga querida,,,muita paz,,,muitos versos na alma...beijos e beijos.

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  22. Que o mundo conquiste a paz.

    beijos Luma.

    Paz!

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  23. Mais um ano se passou e somatiza o tempo que a ciencia foi corrompida pelo lado obscuro do ser humano que quer controlar, ao seu modo, o certo e o errado. Infelizmente o conhecimento pode ser sujeito ao possível mau uso.

    Acontece que a IIGM precisava ter um fim e as bombas foram usadas para pouparem mais vítimas. Foi uma alternativa cruel, devido as consequencias dos que não morreram no ato e sim lentamente.

    Passados anos, acidentes nucleares mostraram a vulnerabilidade dos humanos pela obra criada, visto os estragos causados - novamente voltamos ao Japão, devido ao terremoto.

    De outro lado, a ciencia nuclear pode ser benefica e necessária, utilizada na medicina, na industria, na geração de energia, e mais.

    Que haja sabedoria para que a energia nuclear seja voltada para o bem da humanidade e não para o seu fim.

    Bjs

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  24. Luma:
    Tenho uma amiga japonesa. Ela estava no Japão quando esta tragédia aconteceu.
    Minha amiga me disse que a única forma de se proteger foi se enrolar em lençóis brancos. Um horror que só quem esteve persebte é capaz de avaliar.
    O Japão está em vias de acabar com fontes de energia nuclear. Por que o Brasil ainda insiste? Intereeses que certamente não são os nossos.
    Já li muita coisa sobre o assunto e cada vez mais fico assutada.
    Parabéns pelo texto.
    Uma boa semana!
    Anny.

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  25. É...tudo em nome do progresso...e da destruição da própria humanidade...eu acho que é algo cíclico, cármico, não sei...como entender o ser humano...?

    Mas, por enquanto, quem mais sofre mesmo é o nosso querido planeta...

    Beijos...

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  26. Sente-se no ar o desejo inconsciente que o ser humano tem por tragédias que pareçam uma revelação. Historicamente, sempre que uma situação fica insolúvel, prosperam as ideias mais irracionais, mais boçais para resolver o problema. Mesmo uma catástrofe sangrenta parecerá uma verdade nova. Já imaginou os "tea parties" no poder?

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