O Traidor do Rock

traidor do rock

O dia 09 de Julho de 1955 marcou o Grande Cisma na música do século passado. O adocicado mambo de Perez Prado, "Cerejeira Rosa", caía do número 1 nas paradas de sucessos americanas e entrava em seu lugar o primeiro megahit do rock'n'roll, "Rock Around the Clock", com Bill Haley & His Comets. A fúria do rock vinha decretar o fim das canções de amor, que Frank Sinatra tanto amava e das quais era o intérprete maior. Tudo indicava que o seu tempo havia passado: os Sinatra do futuro seriam Elvis, Lennon, Bowie, Bono...

Mas o velho Frank ainda tinha muita garra e muita paixão. Iniciava 1955 com 39 anos e completaria 40 no dia 12 de Dezembro, portanto a 55 anos atrás - sintonizem! Sua voz estava no apogeu. Como Billie Holliday - amiga e inspiração - ele vivia cada palavra de suas tristes canções, injetava uma gota de sangue em cada nota. E sangue fora derramado literalmente durante sua infeliz paixão pela estrela de cinema Ava Gardner.

Numa noite de Novembro de 1953, o compositor Jimmy Van Heusen encontrou Sinatra caído no elevador de seu apartamento na Rua 57, com os pulsos cortados. Van Heusen havia sido uma espécie de cupido para o romance de Frank e Ava, mas se arrependeu. Depois de uma briga colossal em que os dois quebraram todos os móveis do apartamento, Van Heusen, recém-saído de um enfarto, rompeu com Sinatra. E mandou que procurasse um psicanalista se tinha algum amor à vida. Um Sinatra deprimido e cansado foi deitar-se no divã do dr. Ralph Greenson, o terapeuta de nove entre dez estrelas de Hollywood, entre elas Marilyn Monroe.

A dor de cotovelo sempre rendeu boas canções e segundo a biógrafa não-autorizada de Sinatra, Kitty Kelley, no polêmico "His way" (1986), "O Trauma que Frank sofreu por causa de Ava penetrou na sua música, dando uma nova pungêncai a letras que falavam de perdas e solidão. Os números que cantava nos clubes noturnos refletiam a melancolia profunda que ele sentia na época. Carregada de força e emoção como nunca, sua voz ressoava com dor profunda e turbulenta agonia ao cantar "I'm a fool to want you", fazendo cada palavra parecer um grito de angústia diante de sua paixão por Ava". Um dos clássicos da Torch song (canção de fossa), "I'm a fool to want you", que começou como uma adaptação do Andantino da "Terceira Sinfonia" de Brahms, teve o próprio Sinatra como co-autor e entrou para a História como o prefixo musical de uma das love stories mais infelizes do século.

Como Picasso e Miles Davis, Sinatra atravessou várias fases estilísticas. Houve os anos com a orquestra de Tommy Dorsey (1940-42), o período Columbia (1943-52), os anos Capitol (1953-61) e a fase crepuscular de sua própria gravadora, a Reprise. Fãs e críticos demonstraram uma preferência acentuada pela fase da Capitol. Nela, Sinatra se serviu do talento dos arranjadores como Nelson Riddle e Billy May. Riddley resumiu seus 25 anos de trabalho com Sinatra como uma parceria tranquila "Ele tem todo o instinto de um músico", disse.

Dizem que a verdade às vezes está no erro. Um momento que ilustra todo o rigor de Sinatra em seu artesanal vocal ocorre num false start, um tropeço na gravação de "(How little it matters)How little we know", em 1956. Sinatra interrompe a gravação e comenta: "Você não pode blefar com as notas, você tem que cantá-las". E prossegue, com uma interpretação perfeita, dialogando admiravelmente com a orquestra, num equilíbrio de forma e conteúdo que tornaria a marca registrada de anos de Capitol.

Entre as obras-primas desta época estão "I've got the world on a string" - Com Sinatra manipulando o mundo como uma marionete - e "Learnin' the blues", maravilhosa lição de como sair da depressão para a vida, valendo-se da magia da música.

Cinema e canção estavam irreversivelmente entrelaçados a essa altura da carreira de Sinatra. Em 1953, ele lançou a versão vocal de "From here to eternity", o tema do filme "A um passo da eternidade", em que faz o papel de um soldado rebelde no Havaí às vésperas do ataque japonês a Pearl Harbor. Na pele de Maggio, contracenando com Montgomery Clift e Burt Lancaster, Frank receberia o Oscar de melhor ator coadjuvante em cerimônia no teatro Pantages, em Hollywood, no dia 25 de Março de 1954.

Frank seguia o caminho inverso em "Young at heart", uma canção de sucesso que alcançou o sétimo lugar nas paradas em 1954 e acabou dando origem a um filme, colocando-o ao lado da também anfíbia (cantora/atriz) Doris Day.

Em Setembro de 1955, morria tragicamente o ator James Dean, símbolo do "rebeldia sem causa" (quatro anos antes, Albert Camus lançara seu manifesto "L'homme revolté", publicado nos EUA como "The Rebel"). Sinatra de certa forma - e apesar de todos os seus vínculos com o establishment e a máfia - tinha tudo a ver com o modelo do existencialista rebelde. Os cacoetes e trejeitos que Marlon Brando, James Dean e Paul Newman tinham adquirido nas aulas do Actor's Studio de Lee Strasberg eram, para Sinatra, coisa natural, aprendida nas calçadas da vida.

Em 1955, ele estrelava com Marlon Brando e Jeana Simmons "Guys and Dolls" (Eles e elas). Frank tinha uma bronca particular com Brando, que considerava "o ator mais superestimado do mundo". Encarava ainda uma outra comédia romântica, "Armadilha Amorosa", com Debbie Reynolds. Mas foi em "The Man with the golden arm" (O homem do braço de ouro) que Sinatra encontrou talvez o maior papel de sua carreira: a história de Frankie Machine, jogador e viciado, cujo sonho de se tornar um grande baterista de jazz é destruído pela droga, mas que acaba se redimindo graças ao amor da deusa loura Kim Novak. O papel lhe valeu a indicação para o Oscar de melhor ator "Estou na praça", disse ele na época, "mas não chamo isto de uma volta. Não me afastei, eu estava aqui o tempo todo".

Vale um flash forward na carreira do "galã" de Frank: no ano seguinte, em 1956, ele vai formar o triângulo amoroso de "High Society" (Alta Sociedade) com Grace Kelly e Bing Crosby, sempre na sua, carente e romântico, pedindo para ser adotado por mulheres com superdosagem de instinto materno.

Foi uma boa safra para Frank Sinatra, a de 1955. A essa altura ele já havia alcançado todas as glórias. Mais do que cantor, ator e celebridade, tinha marcado o século com o seu estilo de vida. Uma das peças mais inteligentes do jornalismo é o perfil publicado em 1966 na revista "Esquire" por Gay Talese "Frank Sinatra tem um resfriado". Até seu resfriado virava matéria importante.

Um livro "The way you wear your hat - Frank Sinatra and the lost art of livin'", de Bill Zehme, já lançado no Brasil (A Arte de viver), analisa como nos detalhes, até mesmo o jeito de usar um chapéu, Sinatra influenciou seu tempo. Políticos, guerreiros, santos, aventureiros, esportistas serão lembrados para o título de Homem do Século. Muita gente vai preferir um artista, alguém que tenha alegrado os corações com a beleza de uma canção. Muitos vão votar em Sinatra.
Rock"n Roll: a mais brutal, feia, desesperada e cruel forma de expressão que já atingiu meu azarado ouvido (Frank Sinatra)

17 comentários :

  1. A década de 50 foi na verdade a grande década do início da revolução musical!
    Claro que os monstros sagrados conseguiram sobreviver e manter o seu próprio apogeu.
    ... mas as músicas francesas (individuais) e italianas (conjuntos musicais) sofreram sério revés. Não conseguiram vencer a Grande Onda do Rock !
    .

    ResponderEliminar
  2. Adoro suas "aulas"!

    Muito obrigado pelo zelo com o qual nos trata!

    Bjs

    ResponderEliminar
  3. Olá, Luma
    Tenho certeza de que se o Tema da nossa Blogagem Coletiva Natal foi instigante pr vc É porque tem muito a nos dizer sobre ele...
    Vou esperar vc, com muito carinho... ou no dia 15 ou no dia 22...
    Gosto de aprender com vcs e interagir...
    Seus posts são muito bem apresentados... sejam de quais forem os assuntos... Não poderia ser diferente neste daqui...
    Tenha uma semana abençoada e feliz!!!
    Bjs de paz

    ResponderEliminar
  4. Os velhos olhos azuis... você me trouxe saudades daquele tempo! :) Boa semana, Luma.

    ResponderEliminar
  5. Luma, adoro Sinatra e já li uma biografia dele, não me lembro autor e não tenho o livro. Mas a frase que me marcou foi - toda mulher queria Sinatra na cama, menos Ava que preferiu um toureiro.rs
    Achei perfeito seu post.
    bjs
    Jussara

    ResponderEliminar
  6. Eu amoooooooo a década de 50/60 com suas belas músicas e o rock foi a expressão mais contagiante que já pude presenciar nestes anos todos em que já vivi. Nunca me esqueço uma vizinha pirada que tínhamos na infância que com saia rodada de bolinhas, fita no cabelo e tênis, dançava alucinadamente com um irmão todas as tardes na vila em que eu morava. Eu amo rock!
    bjs cariocas

    ResponderEliminar
  7. Querida Luma; um belo e cultural post! Essa trajetória fez história e trouxe recordações saudosas.
    Passam os anos, mudam os ritmos, os personagens que fizeram essa história, mas o romantico, para mim prevalece.
    Boa semana! Beijos

    ResponderEliminar
  8. Ele foi incrivel cantor, mas senão em engano, ele também cantou várias vezes em Las Vegas...

    Fique com Deus, menina Luma Rosa.
    Um abraço.

    ResponderEliminar
  9. Uau!

    Luma querida, vc não imagina o quanto eu aprendo, descubro e me divirto aqui!!!

    Maravilhha!!

    Beijos Linda!!^^

    ResponderEliminar
  10. Eu nasci na época errada, tenho certeza! Invejinha de quem pôde acompanhar isso tudo.

    Beijo, beijo.

    ℓυηα

    ResponderEliminar
  11. Olá Luma,

    Voltei (nem foram tantos dias longe e no mais tinha posts programados).

    Primeiro quero agradecê-la pelo voto na blogagem coletiva da Glorinha. Um voto seu pra mim significou muito - pois admiro demais seu jeito de escrever, suas idéias e iniciativas.

    E sobre seu post, vergonha, não sabia basicamente nada sobre a vida de Frank Sinatra e esta foi realmente uma aula e tanto.

    Um beijo
    Lu

    ResponderEliminar
  12. Também gosto de te ler.
    Boa lição...que também me fez recordar velhos nomes de que ando tão afastada.
    Beijocas

    ResponderEliminar
  13. Vlw a aula de história da música... muito interessante. Bjs e fik com Deus.

    ResponderEliminar
  14. Luma:
    Sempre antenada. Não importa a data.

    Bom dia!
    Anny

    ResponderEliminar
  15. Olá querida amiga Luma, que matéria exelente, gostei muito de saber mais sobre a vida dese grande astro e das suas músicas,inesqueciveis, mesmo sendo de outros tempos, quem no adora saber e ouvir suas músicas e histórias.
    Parabéns pelo post.
    Beijo.

    ResponderEliminar
  16. Olá querida Luma!!!
    Aqui estou eu, na correria ainda, mas encantada com essa apresentação primorosa e tão bem "entrelaçada" sobre o Sinatra. Eu gosto de algumas canções dele, mas não conhecia essas passagens de sua vida. Com certeza um astro tão consagrado como ele tem muitas histórias a serem reveladas... Seu post me despertou interesse!
    Grande beijo e um feliz 2011! Que este ano possa nos trazer momentos de aprendizado e muitos compartilhamentos!
    Jackie

    ResponderEliminar
  17. Adoro detalhes da vida amorosa de Sinatra e Ava. Breve começo a ler a biografia dela e, com certeza vou saber bem mais sobre. A do Frank Sinatra tá na fila, ador ler biografias, essas informações do teu post são maras! Em relação às músicas dele já não sou tão fã, salvo poucas, dentre elas, my way.

    ResponderEliminar

Tenha identidade, não seja anônimo na web. Crie sua identidade virtual.

...bisbilhotaram em quietude, sem solidão

PlagSpotter - duplicate content checker tool
Licença Creative Commonsget click

Algumas coisas não têm preço


finalista the weblog awards 2005finalista the weblog awards 2006
finalista the weblog awards 2007weblogawards 2008
Verificar conteúdo duplicado

Me leve com você...

Leia o luz no seu celular

Copyright  © 2014 Luz de Luma, yes party! Todos os direitos reservados. Imagens de modelo por Luma Rosa. Publicações licenciadas por Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial- Vedada a criação de obras derivadas 2.5 Brasil License . Cópia somente com autorização.

Tem sempre alguém que não cita a fonte... fingindo ter aquilo que não é seu.

Leia mais para produzir mais!

Atenção com o que levar daqui. Preserve os direitos autorais do editor