Canção de Homens e Mulheres Lamentáveis

Não amamos totalmente uma pessoas as 24 horas do dia.
Colocaram na nossa cabeça que devemos ter um amor romântico e bonzinho ou senão, um amor sensual e cheio de luxúria. Vivemos de um extremo ao outro numa luta constante por preencher um vazio que nenhum ser humano poderá preencher. Essa insatisfação pessoal não deixa que a entrega seja inteira. Medo da perda ou do confronto de nossas fraquezas.
Anterior a postagem de ontem, tive uma conversa com um amigo. Ele iniciou a conversa perguntando de outro amigo em comum. Respondi que estava bem no casamento. Nisso ele declarou:
- Tivemos um caso.
Eu fiquei muito surpresa.
- Vocês são gays??? E porque nunca me falaram...
- Luma, nunca achamos necessário ficarmos falando de uma coisa tão íntima. Só senti necessidade de me abrir com você agora. Ainda gosto dele.
Alguém aí imagina a minha cara de espanto por nunca ter desconfiado de duas pessoas tão próximas.
- Mas ele se casou com uma mulher, então é bissexual?
- Não. Ele só a ama.
- Como assim, só a ama.
- Tem admiração por ela, gosta do que ela faz, gosta do jeitinho dela, gostam da companhia um do outro...ele sempre diz que ela é linda e que dão muitas risadas juntos!
- Vocês conversam sobre o casamento dele e você me vem perguntar já sabendo...Um casamento sem sexo?
- Sem sexo. Eles não transam, fazem amor.
- Quer me pirar lindinho? Trocam beijinhos e afagos (?) Será que fazem planos pra um futuro distante?
- Terão filhos e netos, com certeza.
- E você está triste. Você não poderia dar isso a ele... É isso?
- Não. Ele também me ama, mas de maneira diferente. Dá pra você entender Luma que gays não se encontram só para transar? As pessoas têm visões mesquinhas dos relacionamentos.
Daí lembrei da frase "As pessoas precisam de afeto".
(...)
Corri atrás de um texto que tinha lido a bastante tempo. Só que não achava, por isso os meus devaneios ontem e então, como num passe de mágica. Ele surgiu na minha frente e passo para vocês.


Esta noite... esta chuva... estas reticências. Sei lá.
Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida? De dizer o nome? De lembrar, sequer lembrar, o rosto?
Quem seria capaz de contar a história? De chamar o maior amigo, ou melhor, o inimigo, e dizer:
- Estou me sentindo assim, assim, assim...
A humanidade está necessitando, urgentemente, de afeto e milagre. Mas não sabe onde estão as mãos, nem os deuses. E, quando souber, vai achar que as mãos e os deuses são de mentira. Os olhos de todos estarão cheios de medo, os olhos das jovens raparigas, os olhos, os braços, o ventre e as pernas das jovens raparigas, receosos de pagar com os quefazeres do sexo.
Nesta noite, com esta chuva, as jovens raparigas não são importantes. Apenas uma tem importância. Mas quem seria de todo livre e descuidado, a ponto de dizer o seu nome? De pensar o seu nome? Você diria em público o nome da Amada? E suportaria ouvi-lo? Não, não; o nome dela, em sua boca ou na dos outros, é tão proibido como sua nudez (dela). Não há diferença.
E por que você não se transforma no homem banal, que se encharca de álcool, para apregoar a desdita? Seria mais fácil. Talvez alguém lhe chamasse de porco e você revidasse com um soco no rosto, um só rosto, de todo o Gênero Humano. Viria a polícia, que simplifica tudo, generalizando. E tudo se transformaria em notícia: "Preso o alcoólatra, quando injuriava e agredia a Família Brasileira, na pessoa de um sócio do Country".
Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca.
Uma pergunta, que não tem nada a ver com o corpo desta canção. Quem saberia discriminar o ódio do amor? Ninguém. Os psicologos e analistas têm perdido um tempo enorme.
Ontem à noite, voltando para casa, senti-me espectador de mim mesmo. E confesso que, pela primeira vez, não achei a menor graça. Saíra, pela primeira vez, de óculos e o porteiro do edifício me recebeu com esta agradável pergunta:
- Que é que houve? O senhor está mais velho?
Tirei os óculos e, fitando-o, esperei as desculpas. Mas o homem continuou:
- O que é que houve? De ontem para cá, o senhor envelheceu.
Tinha pensado que, sem os óculos...
Não estou escrevendo para ninguém gostar ou, ao menos, entender. Estou escrevendo, simplesmente, e isto me supre: contrabalança, quando nada. Esta noite, esta chuva - e poderia escrever as coisas mais alegres, esta noite. Neruda, coitado, as mais tristes.
Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida.

De Antonio Maria

Você já mostrou a sua ferida?

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