Duas cidades, duas mulheres


Depois da postagem anterior, senti a necessidade de falar um pouco mais sobre "Um conto de duas cidades" (Tale of Two Cities), que também é a história de duas mulheres. A necessidade foi reforçada depois que recebi várias mensagens perguntando sobre a história e da Sônia Medeiros Vasconcelos que comentou ter anotado tudo sobre essa história.

Se alguém mais se interessou, vamos lá! Se ainda não sabe do que se trata, "Um Conto de Duas Cidades" é um livro de trama contínua e cheia de contrastes. Acontece no melhor dos tempos ou era o pior dos tempos? A calma e a paz encontradas em Londres contrastando com a agitação e revolução fervendo em Paris.

A nobreza e comportamento de Charles Darnay contrastam com a intemperança e vida desperdiçada de Sidney Carton. Os trabalhos altruístas do banqueiro Jarvis Lorry contrasta com a crueldade e conspirações de Ernest Defarge. A lei e a ordem do tribunal Inglês, contrasta com as injustiças cruelmente eficientes do tribunal francês. Um dos maiores contrastes, no entanto, no livro é entre as duas mulheres-chave Lucie Manette e Therese Defarge.

É preciso ambientar a época para melhor compreensão do romance, mas isso não quer dizer que alguns ciclos comportamentais não se repitam mesmo não estando ligados a um mesmo passado.

Há um simbolismo religioso que ronda toda a literatura. É muito óbvio nos escritos da autoconsciência cristã com temas como: pecado e redenção, comunhão, perdão, providência, conversão de um caminho para outro, batismo e limpeza - e o santuário da igreja permeando todas as histórias. O escritor pode ter sido nominalmente cristão, anticristão, de uma religião diferente do cristianismo, ou indiferente à fé cristã. Mas os contornos da paisagem humana tornam os temas religiosos inevitáveis.

Charles Dickens foi um escritor que era cristão. Evitei dizer que ele era um escritor cristão, pois ele não procurou escrever um gênero de histórias especificamente com temáticas cristãs. No passado, eu teria sido menos assertiva do compromisso de Dickens para com a fé cristã, mas ele é a voz cristã de um autor clássico convincente e agradável.

Mulheres na literatura dickensiana muitas vezes retratam o papel da igreja. Mulheres protegem, curam, alimentam, confortam e proporcionam alívio para outros personagens que sofrem por pecados e seus efeitos. Enquanto há certamente uma abundância de bons enfermeiros e professores, ainda há um sentimento poderoso que as mulheres muitas vezes assumem essas funções com maior compaixão e misericórdia do que os homens.

Pessoas encontram a salvação na igreja e mesmo que um cristão hesite em afirmar essa frase, por uma implicância que levou à crença e ideias que deram "a Igreja" um papel de não jogar com a fraqueza humana, as pessoas encontram salvação na igreja. O Salmo 73, lamenta a prosperidade dos ímpios e o verso 17 diz: "Eu entrei no santuário de Deus". 

O caminho retrógrado, a mente confusa, a alma errante, o coração inquieto, a consciência do pecado e basta querer para encontrar o caminho de volta para Deus no santuário. A igreja é, no cosmo cristão, a noiva de Cristo. A mulher no casamento é simbolicamente relacionado à igreja, assim como analogicamente o marido relaciona-se com Cristo. Mulheres, então, representam o papel da igreja na literatura.

A mulher perversa representa que a igreja falhou ou é apóstata, assim como a mulher virtuosa e pura representa aquilo que a igreja deveria ser (Do mesmo modo, um marido ímpio deturpa Cristo, que é o marido da igreja).

Uma questão adicional em relação Dickens como um escritor: Charles Dickens estava escrevendo durante o início e meados da década de 1800. Esta foi a Era Vitoriana e a literatura do tempo foi fortemente influenciada pelos hábitos e costumes do Romantismo. Dickens poderia ser surpreendentemente preciso na descrição dos males humanos, caracteres que exibiam complexidade e ambiguidade. Dickens revelou o coração e as mentes dos homens de variados tipos. Mas ele escreveu antes do advento dessas escolas de literatura denominadas realistas e antes da invasão da psicologia na escrita. Dickens não é freudiano ou pré-freudiano. Sua tendência é descrever os personagens com fortes contrastes em vez de tons suaves indistinguíveis. Os bons são muito bons. Os bandidos são realmente ruins. Tramas coincidem e são resolvidos até o fim do romance. As pessoas não podem viver felizes para sempre, mas os problemas são resolvidos.

Além disso, Dickens era um homem, um macho. Surpreso com essa visão? Bem, Dickens ficou surpreso quando leu um romance que foi escrito por uma mulher. O autor do romance era George Eliot. Enquanto lê o livro, Dickens percebe que George não "estava" realmente George. George era ela, e não ele. O motivo foi devido à forma como as personagens femininas foram retratadas. Dickens tinha uma grande capacidade de colocar-se nos pensamentos de seus personagens, mas ele sabia o que todos os homens sabem. Isto é, os "caras" realmente não entendem as mulheres. Daí quando Dickens retrata heróis e vilões, e esses personagens sendo do sexo feminino, eles eram bastante exagerados no caráter.

O resultado de Lucie Manette é perfeito. O menino que lê este livro, se apaixona por Lucie e, se determina a encontrá-la entre as encarnações de meninas de sua vida irá morrer solteiro. A única falha que Lucie tem é desmaiar de vez em quando - Mas podemos encontrar justificativa nos espartilhos apertados e também no fato de que ela viveu em uma época onde sofás de desmaios eram mobiliário comum. Então não houve falha.

Não é à toa que todos os três personagens homens mais jovens possuem uma queda por Lucie e imagino que um homem que estiver lendo o livro, gostaria de ser um personagem literário por pelo menos um capítulo de "Um Conto de Duas Cidades" para se fazer notar por Lucie.

Lucie tem pureza e graça em tudo o que faz. Ela é aquela que restaura seu pai depois da prisão. Ela fornece vida ao lar e ao amor que sustenta Charles Darnay. Ela é a bússola moral para Sidney Carton que determina desde o início onde ele vai, quando e se necessário, fazer qualquer coisa por ela e qualquer um que ama. Ela não é estranha a adversidade, para o pai e marido ambos submetidos a prisões. Seu filho morre, e sua vida é interrompida várias vezes ao longo do caminho. Como a igreja, através de provações e tribulações, ela perdura e é uma luz para aqueles na escuridão. A tal mulher perfeita até os dias atuais será culpa da educação cristã?

Madame Defarge também teve uma vida conturbada. No final do livro, aprendemos com alguns dos problemas que sua família sofreu. Ela testemunhou as misérias do povo francês e soube em primeira mão da indiferença insensível da aristocracia francesa. Considerando que Lucie era uma cristã devota, presente mais em ações do que rituais; Therese Defarge realizava uma fé revolucionária.

A Revolução Francesa desbloqueou algumas forças que superaram qualquer das crenças ateístas de Voltaire ou as doutrinas filosóficas de Rousseau. Este algo que gerou a Revolução Francesa foi horrível. James A. Billington dedicou um livro longo e acadêmico a este tópico em seu "Fire in the minds of men", apropriadamente legendando as origens de uma fé revolucionária. Groen van Prinsterer dedicou uma série de palestras com o tema da Revolução e incredulidade.

Alguma coisa na psique humana foi desencadeada em 1789 jogando para fora da Europa a violência revolucionária que continua até os dias atuais.

Dickens repetiu o slogan, a declaração de missão, o motivo térreo da Revolução Francesa (e seus filhos) no ditado, "Liberdade, igualdade, fraternidade ou morte?". Não havia mais a presunção de inocência até a prova da sua culpa se alguém se encaixasse no cargo escorregadio de ser um inimigo do "povo". A partir de Robespierre, de Lenin e Stalin, de Mao Tse-Tung para Pol Pot, do Al Queda para ISIS,  revoluções têm provado ser insaciáveis por sangue, mesmo politicamente correto se diga Liberté, Egalité, Fraternité...

Ironicamente, Madame Defarge estava sempre tricotando. A imagem é reconfortante. Tricotar é uma atividade familiar e maternal. Mas quando perguntada, Madame Defarge diz que ela está fazendo mortalhas. Ela está inscrevendo os nomes e ações de tudo o que ela observa nos artigos tricotados (vide postagem anterior). Ela está acumulando denúncias e acusações. O tricô é um registro de seu ódio e vingança.

Após a Bastilha ser invadida, a um tanto contida Madame Defarge revela sua verdadeira personalidade. Puxando uma faca para fora de sua capa, ela pessoalmente decápita um guarda caído. Há, a partir desse ponto, nenhuma restrição, nenhuma consciência, não há escrúpulos morais, não há sentido da lei e da ordem nesta mulher - Madame Guillotine.

"Um Conto de Duas Cidades" figura entre os livos singulares mais vendidos de todos os tempos. Ainda há tempo para ler... Charles Dickens é atual! 
“O número de malfeitores não autoriza o crime.”

22 comentários :

  1. Madame Defarge estava sempre tricotando... (Tecendo)
    Estou fazendo mortalhas... (Medindo e Cortando)

    Vi referência a Cloto, Láquesis e Átropos (As Moiras) sendo ela a realizar todas as atividades e funções!

    Gostei de voltar a ler este blog!

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  2. Oi Luma, bt!
    Pode crer que "Um Conto de Duas Cidades" já foi p/minha listinha.
    Quanto a sua pergunta sobre a carne, o tempo varia de acordo com o tamanho da peça. Eu faço sempre com +-1kg e assando do modo que eu coloquei no blog, leva +- 2 horas p/ficar bem macia. O maior trabalho mesmo é ficar de olho p/não queimar, mas eu acho que compensa demais pq o sabor é bem melhor que o assado na pressão.
    Caso vc tome coragem e faça, me conta depois o que achou, combinado? kkk
    Beijão e obrigada pelo carinho

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  3. Guardei a sugestão, Luma.
    Beijinhos

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  4. Nunca li mas tomei nota. Neste momento tenho ali 10 livros para ler.
    Um abraço e obrigada por tudo o que já aprendi consigo.

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  5. Boa noite,Luma.Ótimo post.
    Aprendi muito.

    Fiquei surpresa ao ler seu comentário no meu blog hoje,porque há muito tempo não a via mais.

    Pensei que tinha acabado com seu blog.

    Você ainda me segue? Veja lá,ok?

    Porque sumiu?

    Responda nos comentários do meu,ok?

    Beijos sabor carinho e linda noite de quarta_feira

    Donetzka

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  6. Dickens é um ótimo autor clássico e o livro a que se refere é excelente. Ele sempre prima por lindas lições de vida, realçando a justiça, o amor e a liberdade.
    Um abraço grande.

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  7. Mais uma boa dica que recebemos com nossas amigas blogueiras! Muito legal,Luma! Adorei te ver lá e fico feliz em te ver novamente na ATIVA no blog! Já era hora... Quanto aos sonhos? O que sustenta é nossa garra, não deixar que caiam nem eles, nem nossa peteca,rs...beijos, tuuuuuuuuudo de bom,chica

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  8. A leitura m prendeu Luminha, obrigado!
    Um beijo querida e bons dias!

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  9. Oi Luma! História é fascinante, queria ter lido, estudado mais, hoje meus neurônios não colaboram na fixação do que leio...Através da História a compreensão do momento atual é mais fundamentada e podemos olhar com outros olhos o que nos trouxe até o atual momento. A boa literatura é uma história mais agradável.
    Beijos!

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  10. Oi Luma
    São livros assim que prendem a nossa atenção da primeira à ultima palavra. Uma trama forte e bem delineada que amarra o leitor até o ponto final. E foi o que aconteceu. Fiquei presa ao texto e querendo mais... muito mais!
    Que bom te ver de volta à blogosfera querida
    Um beijo grande e dias felizes

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  11. Que bom ter voce com esta arte da leitura profunda e nos prender numa releitura de uma trama cheia da historia de um tempo com todas suas relações e inter-relações. Magnifico trabalho Luma, que vem como um estimulo à leitura do livro.

    Obrigado Luma.
    Bjs de paz amiga.
    Preciso ler a postagem anterior.

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  12. Curiosamente, estou a ler "A mulher de trinta anos" de Balzac, espantada com a forma como ele conhecia as mulheres e, principalmente, como as personagens aí traçadas podem ser tão contemporâneas!
    Na literatura, a mulher tem sido, de facto, muito castigada. A mulher adúltera morre, adoece, enlouquece (como a lembrar-me de "O primo Basílio", de "Lady Charterley", entre outros).
    Muito boa reflexão!
    Beijinhos

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  13. Obrigada Luma, bom ler seus escritos.

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  14. Nada melhor do que ler Luma! Voce vai fundo.
    E agora estou muito curiosa com esta leitura.
    Vou passear ate uma livraria!

    Vjs

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  15. É um enredo muito bem trabalhado, Luma. Me prendi só lendo essa sua escrita, então o livro deve ser bem bom... Bjs e bom fim de semana.

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  16. Oi Luma,
    sugestão anotada em grifos néon.Como de praxe, vc nos leva ao cenário posto e muito bem detalhado.Os estereótipos são palpáveis.
    Grata por mais esta indicação.
    Tenha uma ótima semana.
    Bjo,
    Calu

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  17. Bom que está de volta. As suas palavras nos prende e nos faz desejar ler as suas indicações.
    Um grande Abraço. Élys.

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  18. Oi Luma, fico imaginando Charles Dickens num cenário brasileiro. Teria temas e temas para abordar ! A exploração infantil , as nossas crises financeiras , a bandalheira ! Seriam incontáveis livros e cronicas !
    Mas levo a sugestão de leitura e suas explanações sobre a mesma.
    bjo

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  19. Oi, Luma, tudo bem? Poxa vida, você me levou à minha feliz idade dos doze anos quando eu devorava Charles Dickens! Já na minha feliz terceira idade(pero no mucho) nem me atrevo a ler, pois a doença que tive me detonou e tenho dificuldades ainda! Interessante as suas colocações a respeito do livro sugerido! Por enquanto, meu abraço forte!

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  20. Querida Luma

    Muito obrigada pela visita no meu blog e também pelas bonitas, ou sábias palavras.
    Sabe que também pensei igual? Vários impedimentos, mais pareciam uma voz a dizer não vás. E lembrei-me daquela máxima de que " nada acontece por acaso..."
    Mas depois fiquei azeda, se calhar a laborar numa péssima ingratidão pois Alguém me estaria a proteger.
    Beijinhos, amiga gostei muito de a ter de novo, e adorei as suas palavras. Venha mais vezes.
    Dilita

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  21. Olá, Luma, interessante o contexto e não à toa o livro permanece atual. Sabe, sempre quando ouço/leio sobre tempos de outrora, penso que a humanidade pouco evoluiu. Podemos ter mudado os recursos, maquiando algumas crueldades, mas a pequenez humana ainda tem muito a crescer. E por mais contraditório que pareça estamos sempre em busca de amor e liberdade. Abraços!

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  22. Olá Luma, que bom que voltou e a volta foi triunfal trazendo um maravilhoso envolvente texto, penso que o livro recomendado deve proporcionar excelente leitura.
    Grata pela visita.
    Bjss!

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