Ladies and gentlemen, rock and roll!

"Foi com esta frase e imagens do lançamento da Apollo 11 que a 1 de Agosto de 1981 se inaugurou o MTV, canal americano de música que se espalhou pelo mundo como uma epidemia. “Video Killed the Radio Star”, dos The Buggles, foi o primeiro teledisco a ser transmitido pelo canal criado por Robert W. Pittman" [leia +]

Fazia tempo que eu não lia uma matéria tão bem escrita sobre música na internet e hoje pela manhã tive a grata surpresa de conhecer a página que redireciono o link acima. Infelizmente não há menção do autor da matéria. Um lapso! Vale a pena conferir!


A MTV foi "cool" e não é difícil imaginar o porquê da mudança do perfil do canal, mas teve um tempo que clipes e MTV, eram feitos um para o outro.

O tempo provou que nem tudo estava certo. Em parte. Nos anos 90, uma combinação de som e imagem, o videoclipe, reinaria supremo. E graças a ele, em 1991, o mundo conheceria o Nirvana, talvez a última grande explosão do rock.

Mas antes do fogo, houve a fumaça. Quase duas décadas depois da previsão de Heron, alguém teve uma ideia que mudaria radicalmente o modo de se perceber e até mesmo ouvir música pop. A ideia: uma emissora a cabo, totalmente dedicada ao então crescente universo dos videoclipes, o último grito em divulgação na indústria do entretenimento musical.

Hoje, praticamente todo mundo sabe o que é um clipe e o que é MTV. Mas, naquela época, não. No começo dos anos 80, videoclipe e MTV (Music Television) eram duas incógnitas, duas interpretações que precisavam ser explicadas. E foram, principalmente nos anos 90.

O Clipe, em sua origem, era uma mera, e geralmente secundária, forma de promoção de um artista. Gravava-se o sujeito cantando ou tocando, dublando seu sucesso, em um cenário bem simples, e pronto. Para o fã, sem acesso à imagem do artista além das fotos de capas e encartes, estava de bom tamanho. Para a MTV, não. Seu conceito era visual, uma rádio com imagens, no ar 24 horas. Os clipes eram fornecidos pelas gravadoras, que bancariam a produção. Uma mão lavando a outra.

E a música mudou. A MTV cresceu rapidamente e puxou para cima a produção de clipes. De material de segunda, o clipe passou rapidamente a peça promocional de primeira. O sujeito cantando, interpretando literalmente a letra da música, foi para o espaço. Ou, talvez seja melhor dizer, saiu do ar. Os cenários pobres, também. Entraram no seu lugar grandes cenários, grandes produções, imagens cada vez mais espetaculares, interpretações visuais para as canções (que depois foram coroadas pela estética MTV, de cortes rápidos e edição nervosa).

Na época, muita gente não gostou. E ainda hoje, muita gente não gosta de ter perdido o poder de sonhar, criar suas próprias imagens para uma música. "Daytripper", dos Beatles, não teve clipe, mas uma geração inteira sonhou com seus acordes, cada indivíduo no seu próprio cineminha particular.

Mas os tempos eram outros. Artistas como Bruce Springsteen e Neil Young inicialmente ficaram contra a ideia dos clipes, mas tiveram que ceder. Springsteen acabou sendo um dos mais beneficiados pela MTV, mas Young seguiu arredio, sempre disparando farpas em direção à emissora.

Michael Jackson, Madonna e Aerosmith foram alguns dos que souberam usar, em benefício próprio, a MTV. Num outro extremo, gente de fino trato como Peter Gabriel, David Byrne e David Bowie, gente que sempre deu um tratamento visual à sua música e a seus shows, conseguiram dar status de arte aos seus clipes.

Conservadora, acusada de racismo, a MTV inicialmente deixou fora a black music e alternativos em geral. Michael Jackson, de novo, com o mega sucesso do disco "Thriller" e do clipe "Beat it", com a participação do guitarrista Eddie Van Halen, ajudou a quebrar um pouco essa barreira, que ficou abalada também graças à força do rap, gerado no gueto das grandes cidades, mas consumido também por garotos brancos, moradores dos prósperos subúrbios americanos. E assim a vida foi seguindo, com a MTV dominando e comandando o mercado, buscando também engolir eventuais formas rebeldes, distantes do seu grande filão, o mainstream, o centrão musical.

Contudo, fora do foco da MTV, desde meados dos anos 80 uma nova revolução musical vinha sendo orquestrada no escuro: a nova era eletrônica. Dos subúrbios negros de Nova York (hip-hop), Chicago (house), Detroit (techno), emergiram novas manifestações musicais/culturais que não teriam vez na MTV, pelo menos até o final dos anos 90.

Os sons eletrônicos provaram que, de certa forma, Scott-Heron estava certo: essa revolução não passou na televisão, não gerou clipes superproduzidos de alta rotação e nem rostinhos famosos na tela da TV. Ela, de certa forma, completou um ciclo, aberto com o estouro tardio do punk nos Estados Unidos, que já havia acontecido no underground, através do hardcore dos anos 80 - praticamente encerrou um ciclo de rock no século XX e foi coroado com a morte anunciada do líder do Nirvana Kurt Cobain. E foi também o último grande momento da MTV como propaganda de ideias.

Embora as bandas de Seattle já estivessem na ativa desde finais dos anos 80, foi só a partir do estouro de vendas do segundo disco do Nirvana, "Nevermind" (1991) e da maciça exposição do clipe "Smell like teen spirit", que as camisas de flanelas, os jeans rasgados no joelho no estilo depois copiado até por grandes grifes e o cheiro de espírito juvenil realmente afloraram na terra do Tio Sam. E as coisas nunca mais foram as mesmas.

Como num roteiro de filme épico, o porta-voz dessa geração desesperada, Cobain, seguiu passo a passo os capítulos da cartilha de como ser um popstar, chegar no auge e morrer. Diretor, roteirista e ator de seu próprio filme, Cobain atingiu as raias do mórbido no álbum "in utero", onde cada letra era como um bilhete de despedida, lançado em 1993 - quando a fama do Nirvana chegou no ápice - e fechou o ciclo em um fúnebre acústico na MTV, cheia de velas e veludos.

E foi o que aconteceu. Em Abril de 1994, Kurt Donald Cobain, que era viciado em heroína, mandou uma bala na cabeça e deixou apenas um bilhete de despedidas para sua mulher, Courtney Love. O Grunge morreu. O punk morreu. O rock, como o conhecíamos não morreu, mas trocou de pele, mais uma vez. O que viria daí?

A resposta estava na Inglaterra. Como fazem desde os tempos dos Beatles e dos Stones, os ingleses mais uma vez absorveram as novas influências - agora eletrônicas - da América e lhes deram uma cara própria. Assim, na virada de 92 para 93, apareceu para o mainstream, após vários anos no undergrounds, a geração rave, embalada pela verão do amor do movimento acid house - em 1988, 20 anos depois de São Francisco e por várias festas do gênero pela Europa - a "Love parade" alemã foi a mais famosa, arrastando um milhão de pessoas pelas ruas de Berlim. Manifesto urbano e espontâneo.

Uma nova geração, movida pelo sentimento de união, amor livre, experimento de novas drogas sintéticas - ecstasy, principalmente - surgiu e só foi identificada muito tempo depois. Com ela veio toda uma gama de manifestações musicais tendo como base a eletrônica. Os ensinamentos punk do faça-você-mesmo podiam finalmente ser levados ao extremo, já que, com o desenvolvimento de novos equipamentos como o sampler e os teclados digitais, qualquer um poderia fazer música em seu próprio quarto.

Por conta disso, surgiram estilos totalmente novos como o jungle/drum'n'bass - uma espécie de resposta britânica ao hip-hop - e outros gêneros abarcados sob o nome genérico de techno: o techno em si, que é uma espécie de punk da eletrônica, com suas batidas violentas e clima de no future - o trance, mais climático e progressivo, o gabba (metal), o house (soul), big beats (batidas black com esteróides) etc.. Gêneros ágeis, independentes, capazes de capturar e absorver influências de toda parte e que chegaram com fôlego para receber outras influências.

Em meio a essa pulverização musical, o underground atravessou a virada do século. A MTV perdeu essa parte do filme porque a história está sendo contada outra vez, de outra maneira. Agora, nas ruas... 

24 comentários :

  1. Bom dia, Luma!
    A história da MTV. Gostei de saber os detalhes.
    E quer saber, com a TV aberta muito ruim, gosto de ter a opção de ver a MTV.
    Ela costuma ter brograma de boas músicas pela manhâ.
    Mas como vc disse, agora ela conta uma outra história.
    Boa semana!
    Anny

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  2. Luma, foi bom re-conhecer a história da MTV.
    Com a evolução, tudo muda.
    Xeros!

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  3. Luma,muito interessante seu artigo contando tudo sobre a MTV!Eu não conhecia!Adorei a musica!Valeu recordar!Bjs e boa semana!

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  4. Oi querida
    Nunca tive TV paga, então não assisti MTV, mas amo musica e clips!
    Obrigada por apresentar-me Gil Scott-Heron, adorei a musica, principalmente por ter flauta ao fundo (é uma de minhas paixões).
    Muito obrigada por avisar-me sobre o link errado, concertei!
    Tenho uma receita de brownie perfeita, é realmente deliciosa:
    http://www.cucchiaiopieno.com/2009/06/brownie.html
    Espero que goste!
    Bjim
    Léia

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  5. Ah, a MTV. Passei, e passo, muitas horas na frente dela. Confesso que, ao menos no Brasil, ela está com uma programação que não me agrada, muito underground, principalmente se comparado com a vibe happy rock dos últimos anos. Mas há coisas boas: o Grêmio Recreativo, por exemplo, é um achado.

    É impressionante como a emissora marcou época, mudando o comportamento de um mercado gigantesco. Fazer 30 anos e continuar atual não é pra qualquer um.

    Beijos.

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  6. Oi Luma, tudo aqui é maravilhoso. Uma imensidão de informações. Estou me deleitando, viu? Abraços

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  7. LUma
    É bom passar por aqui vamos continuando a saber mais.
    Um beijinho commuito carinho
    Obrigada pela visita...

    volte sempre.

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  8. A MTV revolucionou, de fato, todos que gostam de música (ou seja, quase todo mundo). O que ela mais me ensinou foi o gosto pelo clipe. A MTV, realmente, impulsionou esta indústria.

    Beijos, Luma.

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  9. Já passaram 30 anos meu Deus! Como a vida é curta... Essa música de estreia ainda sabe bem ouvir agora- Uma boa semana cheia de sorrisos, flores e ...poesia :)

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  10. Sempre curti assistir a MTV. Adorei ler o seu texto. Atualmente não tenho tido tempo para ver o que anda rolando pela televisão. Isso me fez ter vontade de voltar ao tempo.

    Nota 10 esta postagem!

    Beijos

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  11. Os dois estão muito bem escritos Luma, e com muitos boas referências, recordações e citações.

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  12. Puxa , Luma , vivi tanto a época de ouro da MTV, como estou velha...
    Agora eles parecem só fazer reality show, uma pena mas as coisas mudam. Deu saudade !


    bjs

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  13. Parece que foi há muito menos tempo...
    Hoje prefiro outros canais de música, mas na altura julgo que nem tinha concorrência.
    Beijo, querida amiga Luma.

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  14. Oi Luma!Passando para reler seu texto e agradecer o seu carinho!Boa semana!Bjs,

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  15. Oi Luma!Passando para reler seu texto e agradecer o seu carinho!Boa semana!Bjs,

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  16. Não que eu me surpreenda pela forma de reagir a este seu post, afinal eu sempre fico encantada, vc sabe. mas é maravilhoso mais, a gente ir lendo (e vendo) os nomes que fizeram parte da minha (e de muitos outros) juventude.
    Obrigada, Luma, nesse dia tão.. digamos, sem perspectiva, você nunca vai poder imaginar o quanto me fez bem ler o que escreveu, conhecer mais uma coisa que tanto admiro e gosto, ah! minha querida, você é luminosa e mais que demais.
    Um beijo e obrigada
    Meg (sub rosa)

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  17. Legal suas explicações Luma!
    Sabe, meu filho é produtor musical e fala nesses nomes todos que você citou no último parágrafo, mas eu bóio completamente ou, talvez, por vontade mesmo, porque simplesmente não curto nada esse tipo de som atual.
    Fiquei presa nas décadas de 60/70/80 e depois disso nada me encantou mais.
    Mas, vejo que a progressão musical foi grande e que sempre existirá no mundo pessoas com gostos diversos.
    muito bom seu post!
    beijos cariocas

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  18. Luma, tens sempre algo legal pra mostrar...Adorei teu comentário lá e vemos cada uma mesmo, que não se dão conta da idade,srrs beijos,chica

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  19. Belo link, sim, Luma. Obrigado, bom resto de semana! :)

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  20. Oi Luminha,
    Saudades de vc e desse cantinho que sempre esta me trazendo algo de bom.
    Hoje foi a sobre a MTV. Muito legal.

    Um beijo e um restinho de quarta com muita luz e paz!

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  21. Interessante! Eu gosto da MTV e concordo com um comentário acima, na TV aberta é terrível assistir alguma coisa ¬¬

    E imagino como se sente com a perda do seu cãozinho. Faz muito tempo que não morre nenhum lá em casa, mas já sofri muito com isso :(

    Beijos

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  22. Luma

    A leiga aqui adorou saber mais sobre a historia da MTV. As vezes eu curto, as vezes acho tão maluca, tao bizarra a programação...

    Beijos

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  23. Bom dia Luma
    Passei para avisar que o seu relato Meu melhor momento está hoje lá no pensandoemfamilia.
    bjs

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  24. "I want my... I want my... I want my MTV!..."
    Luma, é isso q me vem a mente sempre que vejo o símbolo, assisto a algo no canal em qq parte do mundo, e agora, lendo este delicioso post: a frase inicial repetida pelo Sting, antes da guitarra de Mark Knopfler em "Money for Nothing" do ótimo Dire Straits.
    Nos fins dos anos 80, eu e alguns amigos nos reuníamos com frequencia na casa de um deles. Lá falávamos, assistíamos e colecionávamos séries clássicas e, através de intercâmbio de material conseguíamos dos EUA VHS com gravações da programação da MTV norte-americana. Depois um amigo nosso de São Paulo assinou a então operadora TVA e nos brindava com o clip inédito e sem cortes do clip da Madonna "Justify My Love", além de inúmeros programas apresentados então pela Astrid Fontenele (q eu já gostava desde o tempo de outro programa da TV Gazeta de São Paulo, de onde também saíram Fernando Meirelles e Marcelo Tas).
    Qd o cabo chegou a Santos, assinamos um serviço de uma operadora e ficava hipnotizada com a quantidade de clips e informação à respeito de música, ditas por numa linguagem inteligível.
    Em Portugal há MTVs segmentadas para vários públicos, e qd vou ao Brasil vejo o quanto este canal mudou. Mas tb mudamos todos nós...
    Bjs.

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