Cine Club

Desligo o telefone, abro "Um sopro de vida" e leio Clarice, na voz da personagem Angela que diz:


"Ontem o mundo me expulsou da vida.
Hoje a vida nasceu.
Ventania, muita ventania
(...)
Vivo no futuro da ventania.
Vivo agora e o resto que vá para a puta que o pariu".

Calma! Calma! Não estou brava com ninguém! É o contrário! Como venta nesta cidade e eu pensei em ter um fim de semana ensolarado, depois de tanta chuva!

Era uma vez...



Breno Silveira era o câmera do documentário “Santa Marta: Duas semanas no morro”, de Eduardo Coutinho quando surgiu a idéia de um filme que explorasse os contrastes socias do Rio de Janeiro. Parece que você já viu esse filme? O roteiro de "Era uma vez..." é parecido com o de outras produções nacionais, mas incomparável em outros aspectos. Uma excelente produção, nota 10!
Rio de Janeiro. Dé (Thiago Martins) mora na favela do Cantagalo, em Ipanema. Filho da empregada doméstica Bernadete (Cyria Coentro) e abandonado pelo pai, Dé viu seu irmão Beto ser assassinado por um traficante e seu outro irmão, Carlão (Rocco Pitanga), ser exilado da favela pelos bandidos. Decidido a não seguir o caminho do crime, Dé trabalha vendendo cachorro-quente num quiosque da praia. De lá ele observa Nina (Vitória Frate), filha única de uma família rica que mora na Vieira Souto, rua em frente à praia de Ipanema. Os dois se conhecem na praia e acabam se apaixonando. Porém as diferenças entre seus mundos de origem geram diversas críticas e preconceitos velados.
Depois das resistências iniciais, foram abertos os cofres para que “Era uma vez...” saísse do papel. O filme foi parcialmente financiado com recursos obtidos através da Lei Federal 8.685/93, assim como o Prêmio Adicional de Renda 2006 e o Edital de Finalização da Ancine 2007.

O melhor do filme fica pela atuação de Thiago Martins que é por assim dizer, a alma do filme. O personagem passa da delicadeza à ira com grande desenvoltura, convence em todas as cenas - interessante é que este ator teve que batalhar muito para conseguir este papel, que o diretor se negava a entregar a ele, por achá-lo "galã demais" para o papel e teve que enfeiar pra conseguí-lo. O ator que é integrante do grupo "Nós do Morro" e continua morando em uma favela do Rio. Destaque também para Cyria Coentro, que surpreende no papel de mãe que faz tudo para manter os filhos no bom caminho.

O filme começa mandando bem com a música “Vide Gal”, na voz da Mart’nália (no link a versão é de Marisa Monte para o dvd "Barulhinho bom" - uma viagem musical destribuído pela Emi).

Outra música muito boa do filme é “Minha rainha”, escrita por Manacéa, da Velha Guarda da Portela e cantada por Luiz Melodia.

Nos créditos finais, ainda é possível ouvir a pungente “Uma palavra”, parceria de Marisa Monte com Brown e Arnaldo Antunes.

As imagens de Ipanema feitas a partir das lajes do Cantagalo geraram cenas inesquecíveis, fazendo de "Era uma vez..." também uma espécie de declaração de amor ao Rio de Janeiro.

"Lemon tree"



Em “Promessas de um mundo novo”, de 2001, o conflito entre israelenses e palestinos é tratado sob o ponto de vista de sete crianças e em “Paradise now”, de 2005, dois homens-bombas questionam as conseqüências de um atentado suicida e os motivos de sua existência. Estes são dois exemplos de filmes que retratam este universo conturbado que para nós chega a ser incompreensível, apesar de "longe" deles, podemos procurar entendê-los.

Por isso indico "Lemon Tree", um filme baseado em fatos reais, onde esse eterno conflito é discutido a partir de um incidente e sob a perspectiva feminina de Salma Zidane (Hiam Abbass), uma viúva palestina que sobrevive da venda de conservas de limão produzidas em casa.
Lemon Tree é uma ode à convivência pacífica. Foi produzido por uma anteriormente improvável união entre produtores franceses, israelitas e alemães. E é falado em árabe e hebreu. Dirigido por Eran Riklin (também de A Noiva Síria), o filme ganhou o Prêmio do Público no Festival de Berlim.
Sem querer estragar nenhuma surpresa, sua mensagem final é brilhante, ao mostrar com vigor cinematográfico que nos conflitos nos quais imperam a guerra e a intolerância, todos perdem. Menos, talvez, os advogados. E, por falar em conflitos, o filme faz duas referências ao futebol. Uma francesa, com a foto do jogador Zidane pendurada no quarto da casa da personagem que leva o mesmo sobrenome, e outra brasileira, com a nossa bandeira e a inscrição champion (campeão, em inglês), bordados no agasalho do advogado de Salma. Coincidentemente ou não.

Lemon Tree é o título internacional da música que nós brasileiros conhecemos como Meu Limão, Meu Limoeiro. Exatamente a canção que abre o filme homônimo, que a distribuidora optou por deixar, aqui no Brasil, com seu título internacional mesmo, sem tradução. Talvez a decisão tenha sido acertada: o choque cultural que o filme mostra parece mesmo intraduzível.
Você verá razões pertinentes para a existência do abismo entre judeus e palestinos. O pomar é uma metáfora nesta disputa de terras que se arrasta por séculos e é impossível não mergulhar nesta história de solidão e intolerância.

"Do outro lado"



Uma ciranda de encontros e diferenças que nos mostra em "Do outro lado", o diretor Fatih Akin, o mesmo de “Contra a parede”, ganhador do Urso de Ouro em Berlim em 2004.

Um filme comovente com acontecimentos que mexem com valores, provocam reações que fazem abrir os olhos, revolucionar o interior para resgatar a essência daquilo que se perdeu pelo caminho. Com a filmagem próximas ao rosto dos atores, o público consegue enxergar o que vai se revelando e os acontecimentos externos acabam por perder relevância.
clipped from www2.uol.com.br

O jovem Nejat não aprova o relacionamento de seu pai viúvo com a prostituta Yeter. Mas ele acaba simpatizando com ela ao descobrir que Yeter envia dinheiro para a Turquia, a fim de pagar os estudos universitários da filha. A morte súbita de Yeter distancia pai e filho. Nejat viaja então a Istambul para procurar por Ayten, a filha de Yeter. Mas a jovem, uma ativista política, fugiu da polícia turca e está agora na Alemanha. Ela se torna amiga de Lotte, que a acolhe em casa, a contragosto de sua conservadora mãe. Quando Ayten é presa e seu pedido de asilo negado, acaba sendo deportada. Lotte viaja à Turquia, onde se envolve com a situação aparentemente sem esperanças da amiga. O filme ganhou o prêmio de melhor roteiro no festival de Cannes 2007.

O filme incomoda por criticar a intolerância, a falta de solidariedade e ao preconceito. Na última sequência de cenas do filme percebemos que é uma continuação da primeira cena, com desfecho digno de grandes obras do cinema. O filme, merecidamente indicado à Palma de Ouro no ano passado levou o prêmio.

O Raphael Rap do Rapensando me convidou para o meme Cine Club, iniciado pelo Ricardo sobre os 3 melhores filmes do primeiro semestre de 2008.

Seguindo o código de regras do meme repasso para:

- José Viana Filho do Caprichos e Relaxos, o mais novo cineasta da blogosfera brasileira;

- Pedro Xavier do Desinencial, outro candidato a cineasta e

- Lila do Bem Família, a nossa quituteira que mais entende de filmes.

Lembrando que no último dia 25 começou a 10.ª edição do Festival do Rio de Janeiro - o maior festival de cinema da América Latina que premiará os melhores com o Troféu Redentor.

O Festival vai até o dia 09 de Outubro, onde será apresentada uma maratona de cerca de 350 filmes, entre curtas, médias e longas-metragens, exibidos através de 21 mostras em 39 salas diferentes. Veja a programação e participe! O Cine Odeon está disponibilizando exibições com ingressos a apenas R$ 2.

O Distant Daily e Pensieri e Parole, concorrem ao Prêmio "The Bobs" - ambos na categoria Melhor Weblog da língua portuguesa. Até o dia 30 de Setembro você pode fazer a sua indicação nas diversas categorias destinadas às premiações. Faça a sua indicação no The Bobs e depois vote no Distant Daily ou no Pensiere Parole. Clique para votar aqui e aqui, respectivamente.

Beijus,
Luma

10 comentários :

  1. menina, isso tudo é so um post?...
    uau!

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  2. Era uma vez... Pensei que era mais um clichê. Fiquei até com vontade de assistir. Quanto aos outros, esses eu realmente preciso ver!

    Obrigado Luma, e bom fds! Com chuva ou sem chuva! hahah

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  3. Nem me fale de vento e chuva. Ontem quase não consigo voltar para casa, por causa do temporal que caiu. E agora é isso até o ano que vem.

    Beijo,

    Pablo
    http://cadeorevisor.wordpress.com

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  4. Querida Luma,
    Muito obrigada por suas carinhosas palavras! Para mim também é uma felicidade contar com a sua amizade. Esse universo dos blogs é realmente fascinante!

    Volto amanhã com calma para ler o seu post, com temas sempre interessantes e atuais!
    Beijos!

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  5. Luma
    Vc irá no Festival de Cinema do Rio?
    Eu pretendo ver um ou dois filmes...
    Bjs
    :)

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  6. LUMA, um bom fim de semana e um beijo pra você ! 8)

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  7. Luma, passei pra me informar e desejar um otimo final de semana. Vou lá votar na minha querida Meiroca....

    Bjs

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  8. Poxa só agora pude vir ver as indicações e fiquei meio envergonhado com as minhas após ver as que aqui estão hehe

    Assim como o Éverton não assisti o Era uma vez por pensar que era mais um clichê dos últimos dias no cinema brasileiro... mas mais uma vez o velho mote "as aparências enganam" se faz presente rs...

    Se Lemon Tree segue a mesma proposta de questionamentos existenciais como Paradise Now eu nem sei o que tô fazendo ainda aqui... vou assistir com certeza...

    O último foi o que menos me interessou, mas o "mexer com valores" sempre me atrai, uma boa pedida também...

    Muito bom Luma. Valeu pelo atendimento do meme e desculpa a demora pra vir comentar. Bjos e té mais

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